A reorganização pedagógica e
administrativa da escola, respaldada por uma concepção progressista, exige,
simultaneamente, sistematizar e organizar a diretriz pedagógica, que seja
compatível e coerente com o momento histórico e com as concepções dos
componentes estruturantes e determinantes do processo educacional e didático.
A concepção de
educação, portanto, não pode estar dissociada da FUNÇÃO DA ESCOLA determinada
socialmente, ou seja, assegurar, COM COMPETÊNCIA:
a
- A difusão, acesso,
manipulação e produção de conteúdos concretos (científicos, sociais, naturais
e estéticos), indissociáveis e ressonantes na realidade social do aluno e
construídos historicamente. Assim, constitui-se como instrumentos de
apropriação do saber, ajudando na minimização da seletividade social e
democratização do acesso e do saber, como parte integrante do todo social.
Assim, “a educação por ela ofertada, deve ser uma atividade mediadora no seio
da prática social global, através da intervenção do professor”. (LIBÂNEO, p.
17)
b
- A compreensão ampla (numa
perspectiva de nacionalidade e universalidade) de cultura, saberes, relações
sociais, mecanismos de dominação e discriminação, de mundo, de sociedade, de
escola, de professor e educador, de aluno, etc., como condição básica para
transformação social e exercício pleno da cidadania.
c
- A necessidade de superação
progressiva da forma de organização do sistema sócio-econômico vigente,
respaldada pela concretização e expressão da consciência política de
professores, alunos, pais, direção, etc., decodificada na convergência de
interesses por uma educação de qualidade, onde as metas sejam:
1. formação do
indivíduo comprometido com a qualidade de vida e construção de uma
sociedade justa e igualitária;
2. habilitação e
qualificação de professores para atendimento de classes especiais,
pré-escolar, alfabetização e das séries iniciais do 1.º grau, com uma sólida
formação resultante da articulação entre o técnico, o político, o cultural, o
científico e o humano.
Estabelecidas as
funções da escola, ao menos sistematicamente, e INCORPORADAS COMO PRÁTICA
SOCIAL, obrigatoriamente elas fazem emergir uma maneira de reverter a
concepção de homem e como esta concepção se integra na PRÁTICA EDUCATIVA.
Então, é imprescindível entender o HOMEM numa perspectiva dialética, em que
não se pode reduzi-lo a um mero instrumento cego de quaisquer forças
superiores (terrenas ou extraterrenas), mas, ao contrário, é o CRIADOR da
História, não apenas no sentido estreito de que o homem cria porque age, mas,
sobretudo, no sentido de que age conscientemente, no sentido de que faz
conscientemente a escolha entre várias possibilidades. O homem se transforma e
se cria ao modificar as suas condições de existência. Ele pode “transformar a
natureza e a sociedade, através da mediação do trabalho, assim, transforma sua
própria natureza, num processo de AUTO-TRANSFORMAÇÃO que nunca tem
fim”.(FRANCO, p. 2-3)
Compreendê-lo,
portanto, significa PARTIR DAS CONDIÇÕES REAIS DE SUA EXISTÊNCIA, SEUS
LIMITES, SUAS HABILIDADES, SUAS ATITUDES, SUA CULTURA, SUA FORMA DE LER O
MUNDO E A SI PRÓPRIO, SUAS POSSIBILIDADES, SUA CONDUTA, etc., enfim, tudo o
que determina sua vida. Eis, então o ser CONCRETO.
Entendido a
essência da natureza do homem, cabe então à Escola, a partir desta visão
concreta e contextualizada, delinear a sua escolarização, buscando e
reclamando uma CONCEPÇÃO DE PROFESSOR que esteja, impreterivelmente
comprometido com: o processo de direcionar e dirigir o ensino e a aprendizagem
e com o aluno (HOMEM) como ser concreto, que determina e é determinado pelo
social, político, econômico e individual. Em suma, o professor que a sociedade
e a escola necessitam emergencialmente, é aquele que considera o conhecimento
- saber, conteúdo - a ensinar como atividade social, histórica e constitutiva
do homem - aluno -, e a si mesmo como partes inseparáveis de um contexto
historicamente estruturado.
Nesta
perspectiva fica evidenciado que a construção e caracterização da concepção
pedagógica da escola reside não mais na descontextualização de um dos seus
componentes ou estruturantes, isto é, na priorização de um deles em detrimento
de outros. Não se aceita mais a concepção de conteúdos que apregoam ser a
totalidade de conhecimentos que o professor transmite ao aluno, o objeto da
aprendizagem, mas a ele se “incorpora a totalidade das condições e local da
escola, as relações humanas, etc. Além disso, o conteúdo da educação está
submetido ao processo em que ela - educação - ocorre, é algo dinâmico,
histórico (sem contornos definidos), variável (não se repete) e só se realiza
parcialmente em cada ato educativo, pois cada ALUNO ABSORVE DIFERENTEMENTE A
MATÉRIA DE ENSINO DISTRIBUÍDA À CLASSE COMUM - construção do seu - do aluno -
conhecimento. A ele - conteúdo - está ligado a forma, isto é, forma e conteúdo
têm relação de interdependência e se condicionam um ao outro; são apenas
aspectos - distintos, mas unidos -, de uma mesma realidade - ato educacional.
A forma é a
FUNÇÃO DE SEUS FINS SOCIAIS. Assim, o conteúdo determina a forma de educação
na qual é ministrada; esta, por sua vez, determina a possibilidade da variação
do conteúdo, aumentando-o, em processos sem fim. Por isso, método educacional
tem que ser definido como dependência de seu conteúdo - o significado -
social, ou seja, o elemento humano ao qual vai ser aplicado, de quem o deve
executar, dos recursos econômicos existentes, das condições concretas nas
quais será levado à prática. (VIEIRA PINTO, p.41-6)
Todas estas
questões relegam, portanto, as concepções clássicas de Método de Ensino.
Historicamente, ele sempre foi generalizado através de políticas educacionais
de governo. O método que se quer hoje, depende basicamente do professor em
sala de aula, isto porque, como afirma WACHOWICZ (1991, P.12):
a. Enquanto meio de apropriação do
conhecimento, o método é uma questão filosófica;
b. Deve
considerar a educação escolar na sua relação com as classes sociais;
c. O método
consiste em elevar-se o pensamento do abstrato para o concreto, e é a maneira
que tem o pensamento para apropriar-se do concreto, de o produzir como
concreto espiritual;
d. Os nexos
internos da realidade precisam ser explicitados para o pensamento, os nós de
onde partem todas as tramas existenciais e históricas.
Em síntese, não mais aceitamos o
conceito de método que, supostamente, tende a ensinar tudo a todos, mas sim, o
de que é a transmissão/assimilação - no sentido sócio-histórico e
interacionista - do saber sistematizado que deve nortear a concepção dos
métodos e processos da aprendizagem.
O método é a
condição onde o aluno supera a não apropriação (saber difuso, desarticulado
apresentado no início do processo) para a apropriação - superação: saber
contextualizado, organizado, etc.), articulado com seu desenvolvimento
físico, emocional, cognitivo e social. Este percurso exige a construção
consciente, por parte do professor, de condições e alternativas pedagógicas,
onde ele e o aluno possam, pela relação dialógica, visualizar três fases
importantes:
a.
Problematização: momento em que o aluno exterioriza sua percepção e
leitura do saber e sua relação com o contexto onde ele ocorre;
b.
Intervenção: momento em que o professor propicia condições - mediação -
onde o aluno contata, acessa, apreende, manipula, compara, relaciona,
descobre, formula, etc., o saber escolar;
c. Superação:
momento em que o professor possibilita alternativas para que o aluno expresse
ou manifeste o SEU conhecimento (momento em que formula: sínteses,
reorganizações, críticas, recriações, avaliações, etc., da relação saber
versus realidades - ápice da transformação de si próprio e do social).
Nesta dinâmica,
fica evidenciado que o saber historicamente construído (na escola: o conteúdo,
matéria de ensino, etc.), para se constituir componente ou estruturante
significativo do processo ensino-aprendizagem, ser dinâmico; apresentar-se
tendo como parte o professor, o aluno, com todas as suas condições pessoais e
sociais; não ter contornos definitivos; a ser, principalmente a ferramenta ou
instrumento que possibilite leituras, releituras e transformação da realidade
social e do momento histórico em que é abordado.
É, a partir
deste entendimentos, que se poderá entender melhor outro componente importante
do processo didático-pedagógico, a interdisciplinaridade. Ela, ao nosso ver,
ocorre e se configura a partir do momento e das condições em que o saber
escolar é objeto de apropriação. Isto é, entendendo-se que todo saber tem
significado e implicações sociais. Não existe por si. Depende da própria
história do homem, pois é a partir de suas necessidades e de sua evolução que
ele se estrutura (circunstâncias históricas de produção), se transforma e é
usado como instrumento de transformação social, cultural, econômica, etc.
Perceber essência do saber sem suas implicações e dimensões é retirá-lo e
isolá-lo da realidade do aluno, do professor e do processo
ensino-aprendizagem, tornando-o estéril e inútil.
O trabalho
coletivo, a partir de relações humanas equilibradas, isentas de preconceitos,
elegantes, éticas, responsáveis, não egocêntricas, etc., será possível mais
rapidamente ao professor apropriar-se dos outros elementos que se somam ao
saber escolar e de sua função social, embutidos no campo de sua atuação. Isto
posto, fica fácil, então, entender que a interdisciplinaridade objetiva:
a. “a vivência
da realidade global que se inscreve nas experiências cotidianas do aluno, do
professor e do povo”(FREIRE, 1991);
b. a eliminação
da fragmentação do saber escolar;
c. a relação do
aluno e do professor com o mundo;
d. a realização
da unidade do saber nas particularidades de cada um.
Defendendo-se
estes pressupostos, acreditando-se neles, estamos dando início a concretização
de uma filosofia que norteará as ações pedagógicas e administrativas do
INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DO PARANÁ. Ela vai exigir, de todo o seu estafe, o
rompimento com velhos padrões e ações; em especial, permitir a revisão do
histórico de formação e práticas docente e discente. Isto não é fácil. Há toda
uma trajetória a ser feita. Pensar que isto é possível em curto espaço de
tempo, é entender que a concepção de aprendizagem do estímulo resposta é a
única verdadeira. Cada indivíduo tem seu tempo e ritmo próprios para se
superar.
“Na medida em que se executar uma nova prática pedagógica - não reprodutivista
-, que os professores se descobrirem como equipe no desenvolvimento e execução
do projeto pedagógico, onde poder-se-ão identificar-se através da
interdisciplinaridade, então o papel do professor como educador colocará em
jogo a estrutura do sistema, enfraquecendo-o e possibilitando a reversão e
superação do atual ‘status quo’. (MELLO, 1993)